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Aprendemos a ler aos 6 (seis) anos de idade, com alguém, e todo o mundo, nalgum lugar, e em todos eles.
Apesar de nos lembrarmos dos nomes de cada uma daquelas mulheres e homens que nos permearam no início da vida menos distorcida, aparentemente o processo que nós passamos para começarmos a ler e
escrever foi tão natural qual foi escrever a primeira frase deste nosso discurso.
Sabemos que talvez isto soe como pretensa soberba, mas alertamos aos interlocutores que menos ‘talvez isto’ não passe de triste “desmemorificação” ou infeliz esquecimento.
Fato é que nós aprendemos a ler. E só lembramos que aprender esta arte não pode ser sozinho, já que a língua só existe para comunicar algo a alguém, e o texto, falado ou expresso, é apenas a forma de estabelecer esta
comunicação.
Assim foi que conjuntamente aprendemos que o conjunto dos significantes traz luz ao significado. Mas para chegarmos a este entendimento, precisamos aprender que “B” + “A” faz o som “BA”, que apesar de nada significar, quer dizer que há uma regra necessária para a leitura, representada pelos sons, ou pela representação gráfica imprecisa deles.
No fundo no fundo, o que entendemos era que cada posição gráfica tinha uma regra de som, e como toda boa regra, tinha suas exceções, então, bom saber as exceções, porque delas muitas vezes se extraem as regras. Quando os sons fizessem sentido, Tcharam! Lá estaria um lindo significado, como “BALA” ou “BALÃO”. Palavras super úteis no dia-a-dia! Pois é.
Entendemos que era preciso saber expressar nesta forma áudio/visual, se não nunca entenderiam que não gostávamos de BALA, mas de BOMBOM. E que tínhamos medo de BALÃO, mas jamais de AVIÃO!
Aprendemos, antes de mais nada, a humildade de saber que não sabemos aquilo que não lemos, e foi assim que aprendemos a perguntar, porque algo de natural nos dizia que nada é porque simplesmente é, mas porque está.
Se está, está hoje, e aqui. Talvez não ontem lá, ou amanhã acolá. Porém nossa memória é refém daqueles dias mais impressionantes, como foi o de descobrir que sozinhos entendíamos o livro de capa com uma minhoca rosa de chapéu; anotaríamos a música da Sandy&Júnior que tanto amávamos, e deixaríamos patenteado aquilo que era os nossos sentimentos.
A magia da leitura sempre foi saber que, apesar da condenação da incompletude da memória, poderíamos reviver aquilo que registraríamos.
Assim foram diários e mais diários que escrevemos. A maioria para nunca mais reler.
Com o passar dos anos, aprendemos que números também são significantes, e podem ser lidos, tal qual a lógica das realidades parelelas, desenhadas pelos loucos, como o exemplo da história da Sofia Amundsen.
Aprendemos que existem várias realidades que podem ser letradas, e assim é que aprendemos que aquelas que nunca são lidas, são condenadas ao esquecimento, que em palavras menos poéticas, significa que são condenadas a morrer.
Por isso lemos todos os dias os textos das vacas, dos porcos, dos peixes, e até das medonhas aranhas. Não lemos o texto das galinhas e dos bezerros.
Quando crescemos aprendemos que além dos animais, gentes gostam de ser textos, e por isso aprendemos a ler o texto dos homens, que é sempre muito lindo, complicado, e as vezes chato. Também o texto das mulheres, gays e lésbicas que – pasmem, sexistas – é a mesma coisa!
Depois de ter aprendido tudo isso, nós aprendemos a ler a violência e o infortúnio, que resumida em uma frase “está sem nunca ter razão de estar, mas só é se escolhemos deixa-la ser”.
Agora estamos aprendendo a ler novas instituições velhas, e a escrever sob outro prisma as leituras e releituras que fizemos sobre a vida na ficção do Direito.
Queremos ler tudo e todos, porém a limitação de sermos humanos, é que não podemos fazê-los ao mesmo tempo. Isto nos leva à conclusão de que, no fundo no fundo, a leitura é uma opção no tempo.
Noutras palavras, leitura é exclusão: a gente lê o que quer.
Originalmente publicado: AQUI
STEMBERG, P.T.C. Como, porque e o que lemos. In: PAN, Miriam Aparecida Graciano de Souza; SILVA; Maysa Ferreira da; SILVA, Paulo Vinicius Baptista; SILVA, Wilker Solidade da (Org). Narrativas periféricas e formação humana no Pré-Pós UFPR. NEAB: UFPR. 2020. p.177-179
